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O meu cancro


Segunda-feira, 30.12.13

Estava tão diferente…

Quando há um mês me desloquei à unidade de quimioterapia para fazer a manutenção do cateter não reconheci um velo amigo que estava a fazer tratamento. Foi ele que meteu conversa comigo. Estava tão diferente que só quase no fim de uma relativamente longa conversa percebi quem ele era. E isso só aconteceu por uma referência que fez às funções que exerceu numa estrutura oficial. Foi então que olhando-o bem nos olhos vi quem ele era. Estava completamente diferente. Estava animado e confiante. Espero que tenha razão para isso e que o pior já tenha passado.

É verdade que cada caso é um caso, que cada um reage de acordo com um conjunto de especificidades, suas e da doença.

Ter sempre mantido o mesmo aspecto – como todos me referiam e eu verifiquei -, foi certamente uma boa ajuda à forma sempre optimista como enfrentei o meu cancro e lidei com todo o processo desde o diagnóstico, passando pela cirurgia e tratamento de quimioterapia até à “ordem de soltura”. Estou convencido que este já foi.

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por Zé LG às 00:13

Sábado, 28.12.13

Ninguém podia descrever melhor uma sala de quimioterapia

O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me

- Abrace-me porque é o último abraço que me dá

durante o abraço

- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento

e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.

Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:

- Estou aqui para lutar

e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.

A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido

- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento

porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.

O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:

- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.

Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.

Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

António Lobo Antunes | 16:42 Quinta, 12 de Dezembro de 2013


Ler mais: http://visao.sapo.pt/antonio-lobo-antunes=s23489#ixzz2oinjNzig

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por Zé LG às 00:18

Domingo, 06.10.13

Descompressão sem melhoras

Aviso prévio: Este tipo de observações que faço ao estado em que me sinto tem dois objectivos - informar quem possa estar ou venha a passar por processos do mesmo tipo e para memória futura. Não significam obrigatoriamente que me sinta mal ou desesperado.

 

Depois de mais de seis meses, mais ou menos, em tensão permanente por causa do processo eleitoral, é natural que tenha sentido uma descompressão, após o acto eleitoral.

Mas, com essa descompressão não veio um melhor estado de espírito nem um sentir-me melhor. Antes pelo contrário, tenho sentido, nalguns casos, um acentuar de alguns efeitos da quimioterapia, dores por todo o corpo (julgo que provocados pelos problemas da coluna) e menos força, física e anímica.

Dos efeitos da quimioterapia, o que talvez se tenha acentuado mais é a dormência das mãos e, de algum modo também, dos pés. Com efeito, nunca os senti assim antes.

Enfim, talvez seja resultado de andar menos ocupado e preocupado com outras coisas e concentrar-me mais no que sinto... e a falta de ouvir a opinião médica.

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por Zé LG às 22:46

Sexta-feira, 20.09.13

Sinto-me bem

Algumas pessoas, directamente ou através de pessoas conhecidas, têm perguntado como estou e como me sinto. O que posso responder é que julgo que estou bem, porque me sinto bem.

Mantêm-se alguns dos efeitos da quimioterapia: mãos dormentes, com alguma falta de tacto e impressão nas unhas e, também, a reacção desagradável ao frio. De resto, acho que não sinto mais nada de estranho.

Aproveito a oportunidade, para agradecer a todos os que têm manifestado interesse em acompanhar o meu estado de saúde, perante a doença que me atingiu. Obrigado a todos!

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por Zé LG às 00:00

Sexta-feira, 23.08.13

Sinto que venci este cancro

Fui informado pelo Hospital de que a consulta marcada para dia 26 deste mês foi adiada para Outubro. Fui ainda informado de que o Médico, que adiou a consulta, tinha estado a avaliar os vários casos com consulta marcada e que foi com base nessa avaliação que decidiu os adiamentos. 

Daqui parece resultar que o meu caso será menos preocupante do que os outros que mantiveram as consultas para a data inicialmente prevista. 

Embora ninguém (técnico de saúde) que acompanhou o meu tratamento me tenha dito o que quer que seja sobre os resultados do mesmo, o estado em que fiquei e o que (ou se) devo fazer, que comportamento devo ter, entendo que este adiamento vem confirmar o que pensava, que a situação está resolvida. 

Embora não possa considerar esta opinião definitiva enquanto não tiver a opinião do Médico assistebnte, sinto-me (ainda) mais tranquilo e confiante. Para este estado de espírito conta também, naturalmento, o facto de me ir sentindo cada vez mais recuperado e de sentir cada vez menos os efeitos do tratamento.

Até prova em contrário, sinto que venci este cancro. 

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por Zé LG às 00:18

Sexta-feira, 09.08.13

Acabou!

Terminei hoje o último ciclo da quimioterapia. Tive, finalmente, "ordem de soltura". Até fui tirar o infusor mais cedo (ainda de manhã) do que sempre fiz. Queria ver-me livre daquele "trambolho" quanto antes. Não só por mim, para me sentir solto, mas também pelo meu filho, a quem o dito fazia muita confusão. "Pai, sangue", "pai, tira" eram expressões que me massacravam. Finalmente, livre!

E, desta vez, sem desmaios, como me disse uma enfermeira para eu aqui escrever. Não me esqueci, como pode ver.

Sinto-me, como nas últimas vezes, cansado e com a boca um pouco encortiçada e algum incómodo com as alterações de temperatura. Espero, agora, que estes efeitos, apesar de suportáveis, vão desaparecendo gradual e completamente.

Um obrigado muito especial às enfermeiras e às auxiliares que foram / são inexcedíveis nos esforços que fazem para que nos sintamos bem ou, pelo menos, menos mal. Sem o seu profissionalismo e humanismo certamente que estes tempos, designadamente os dias dos tratamentos, teriam sido muito mais difíceis de suportar. A todas, sem excepção, o meu BEM HAJAM!

Um última palavra de solidariedade e de esperança para todos os companheiros de infortúnio com quem me cruzei para que as "coisas" lhe corram, pelo menos, tão bem como me têm corrido. FORÇA!

 

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por Zé LG às 23:08

Quarta-feira, 24.07.13

Só já falta o último

Hoje iniciei o penúltimo tratamento. Está a decorrer dentro do registo habitual. Espero que assim continui até ao final.

Também hoje, uma velha colaboradora dos antigos SMAS iniciou o seu tratamento. Há já algum tempo que também um colaborador da Câmara Municipal de Alvito faz, nos mesmos dias, o mesmo tratamento que eu. Aos dois desejo-lhos que tudo corra da melhor maneira possível.

Infelizmente, já perdi dois companheiros de infortúnio e amigos: Manuel Martins, logo a seguir ao primeiro tratamento, e Manuel Figueira, após o último, antes deste.

Não houve ainda dia nenhum de tratamento que não tivesse encontrado pessoas conhecidas, na quimioterapia, pela primeira vez. O que mostra bem como o cancro atinge tantas pessoas. Felizmente que a investigação parece estar a ganhar a luta contra a doença.

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por Zé LG às 23:46

Domingo, 21.07.13

Desabafo, se calhar, injusto...

De facto, o cancro é uma doença social. Porque não afecta apenas o doente mas também os que com ele se relacionam.

Nem sempre esse relacionamento é fácil, principalmente, durante a fase da quimioterpia, por causa dos efeitos desta.

No meu caso particular, sinto que algumas pessoas que me são próximas têm dificuldade em perceber o que se passa comigo e, em consequência, de lidar comigo. Por vezes, sinto necessidade de explicar o que se está a passar, que me condiciona e altera o meu comportamento. Nalguns casos e alguma vezes, arrependo-me de o fazer porque me parece que algumas pessoas acham que me estou a vitimizar ou a tentar aproveitar da situação, para me esquivar a fazer algumas coisas. Talvez o facto de durante todo o tratamento ter levado uma vida, mais ou menos, normal, tendo apenas faltado ao trabalho nos dias em que tenho tratamento, contribua para isso...

Nem sempre é fácil conviver com essas incompreensões e pouca disponibilidade para perceberem melhor e aceitarem o que nos condiciona e altera o nosso comportamento e a necessidade de maior compreensão e aceitação da nossa condição.

Sei os problemas e as dificuldades que a  minha situação que lhes causa, mas não fui eu que pedi para ter um cancro, para fazer quimioterapia e para esta me alterar o comportamento e condicionar a vida...

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por Zé LG às 01:05

Terça-feira, 09.07.13

Há seis meses que me foi diagnoticado o cancro

Há precisamente seis meses que me submeti a uma colonoscopia, de diagnosticou uma neoplasia no cólon ascendente (a localização não era bem esta conforme a cirurgia confirmou, daí a necessidade de um corte maior do que o previsto).

Lembro-me bem de ter recebido a notícia calmanente e de ter tido como preocupação maior conseguir que a operação se realizasse o mais depressa possível, uma vez que me foi dito que era urgente.

Felizmente que a operação se realizou rapidamente, o que certamente contribuiu para que tudo tenha decorrido bem até ao momento.

O que pensei no momemto e que comentei várias vezes depois é que não tinha encomendado um cancro mas, já que me calhou um, o que tinha de fazer é o que tinha de ser feito e esperar que tudo corresse bem, fazendo os possíveis para que isso acontecesse. E é com essa mentalidade que me tenho mantido. Nem por um momento só me passou pela cabeça que que fosse o meu fim. Talvez porque numa me senti muito mal...

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por Zé LG às 23:50

Segunda-feira, 27.05.13

Iniciei hoje a segunda metade do tratamento

Hoje, entrei na fase descrescente do ciclo de tratamentos de quimioterapia, o que é animador, porque permite perspectivar o seu fim.

Se a pesrpectiva do fim da quimioterapia é animadora os seus efeitos vão-se sentindo mais. Os efeitos causados pela frio, o cansaço, algumas náuseas, entre outras menores, vão estando mais presentes no meu dia-a-dia, principalmente durante e logo após os tratamentos.

Para poder fazer esta fase do tratamento hoje tiveram de ser ajustadas as doses dos químicos aplicados, devido ao baixo nível dos glóbulos vermelhos (abaixo do qual não teria sido possível fazê-la). Também o nível das plaquetas, que tinha mais do que duplicado após a interrupção, voltou a baixar significativamente, embora não tendo atingido o mínimo.

Os glóbulos são fundamentais para as nossas defesas. Quando baixam abaixo de um certo valor (15, se percebi bem) as nossas defesas deixam de ser suficientes e é frequente apanharmos infecções ou outras maletas.   

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por Zé LG às 22:47


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